Ansiedade

Ansiedade

Transtorno ou friozinho na barriga?

By Thaiana F. Brotto

Um número muito grande de pessoas procuram os consultórios de psicologia trazendo como queixa principal os sintomas de ansiedade para justificar todo o sofrimento psíquico que vêm enfrentando. Muitos, no início do tratamento, não conseguem caracterizar que as sensações físicas e emocionais relatadas recebem o nome de ansiedade. Outros não sabem distinguir a ansiedade patológica da normal e as colocam na mesma classe, o que gera bastante confusão e um certo desconforto ao paciente.

A ajuda do psicólogo

Com a ajuda de um profissional será possível categorizar os sintomas e observar sob o controle de quais estímulos o indivíduo se comporta. Essa intervenção será realizada por meio da análise funcional, uma ferramenta muito utilizada na abordagem comportamental que identificará as contingências que mantém o ‘comportamento problema’, para então modificá-lo.

É claro que nos preocupamos com os sintomas de nosso paciente, até mesmo porque são através deles que passamos a levantar algumas hipóteses sobre a ansiedade. Mas não enquadrá-lo no diagnóstico é pré-requisito da Psicologia, pois o objetivo principal é entender a função desse comportamento e as consequências mantenedoras, o que permitirá um manejo mais adequado das variáveis a fim de promover mudanças comportamentais e melhorar a qualidade de vida desse paciente.

Como tem sido definida a ansiedade

Quando falamos de ansiedade, acabamos nos remetendo normalmente à sensações que causam mal estar, propagadas por um sentimento difuso, vago e aparentemente difícil de nomeá-lo. A ansiedade tem sido definida, de maneira geral, como um estado emocional desagradável acompanhado de desconforto somático, que guarda relação com o medo.

Esse desconforto somático é relatado por sintomas como cefaleia, palpitações, aperto no peito, leve desconforto abdominal e até mesmo falta de ar. Já no senso comum a ansiedade costuma ser conceituada como aquele “friozinho na barriga” que surge diante de uma situação nova e portanto desconhecida.

Quando a ansiedade é considerada simplesmente um sinal de alerta, é encarada como uma emoção semelhante ao medo, podendo preparar o indivíduo para tomar medidas necessárias, para evitar a ameaça ou, pelo menos, atenuar suas consequências. O conflito se instala quando o medo transita de real para imaginário e, ao ser investigado com mais critério, chega-se a conclusão que ele é fruto da imaginação do indivíduo.

No entanto, essa descoberta só será possível quando a pessoa se permitir “mergulhar” no processo terapêutico. Ela poderá descobrir que esse medo do qual tanto temia e que lhe provocava ansiedade não existe ou existiu em algum momento, mas hoje, modelando seu comportamento que antes era disfuncional para adequado e adaptativo, outros resultados mais satisfatórios poderão ocorrer. E que, por isso, a ansiedade não fará mais sentido.

O tema Ansiedade ainda gera dúvidas

Como falei anteriormente, apesar de ser um tema atual, ainda gera dúvidas. Na mídia muito se fala sobre a ansiedade e por isso nos dá a impressão que se trata de um estado emocional novo, até então desconhecido pelas gerações antepassadas, que surgiu com o advento do mundo capitalista e suas vicissitudes.

Afinal de contas, a ansiedade parece sim subproduto de uma sociedade adoecida, onde a cobrança por performances extraordinárias que o mercado de trabalho exige, o estresse do cotidiano, o consumo desenfreado e as relações comprometidas nos dão a falsa ilusão de que a ansiedade teve seu surgimento nos tempos atuais, nessa época marcada por mudanças de prioridades e valores.

Em partes correto, o que quero esclarecer é que a ansiedade pode sim ter se agravado, configurando-se como sintoma dos conhecidos transtornos de ansiedade. No entanto Seligman apud Barbosa (2004) nos mostra que na época conhecida como "Idade da pedra", a humanidade teve que enfrentar perigos reais e imediatos no seu cotidiano - como inundações e ataques de feras - e os indivíduos que estavam mais alerta tendiam a ver mais rapidamente o perigo que se aproximava, tendo, portanto, maiores chances de sobrevivência.

Assim, o comportamento de preocupar-se, de antecipar o perigo real ou até mesmo imaginário, acabou sendo selecionado dentre outros comportamentos diante de situações que envolviam perigo. Essa perspectiva nos permite compreender a ansiedade sob a ótica da aprendizagem, ou seja, os comportamentos que não são inatos da espécie – como por exemplo, diante de um ruído alto meu comportamento é me assustar – de uma maneira geral são aprendidos e selecionados pelas suas consequências. Isso explica a razão dos comportamentos disfuncionais operarem com muita intensidade no cotidiano das pessoas, mesmo causando um alto índice de sofrimento.

Aprendizagem de pessoas ansiosas

É possível, que na história de aprendizagem de pessoas ansiosas, se comportar dessa maneira deu certo por alguma razão. Podemos imaginar que trouxe alívio diante de um evento aversivo, ao se mobilizar perante um fato, conseguiu se proteger do perigo, sua preocupação com o que poderia vir a ocorrer se confirmou, enfim, um leque com infinitas possibilidades se concretizaram no repertório daquele sujeito. Por isso, o comportamento de ansiedade foi selecionado. Se hoje se mantém é porque seu efeito trouxe consequências reforçadoras para ele e para o ambiente onde estava inserido, já que o indivíduo é fruto de sua relação com o meio.

Em contrapartida, aquilo que num passado remoto era adequado porque resolvia o problema a curto prazo, nesse momento pode ser um martírio, principalmente quando comprometer a vida social daquele que se comporta sob o efeito da ansiedade. Por isso, a ansiedade define-se enquanto fenômeno clínico quando implicar em um comprometimento ocupacional do indivíduo, impedindo o andamento de suas atividades profissionais, sociais e acadêmicas, quando envolver um grau de sofrimento considerado como significativo e quando as respostas de fuga/esquiva ocuparem um tempo considerável do dia.

Ou seja, para não sentir os sintomas desagradáveis da ansiedade a pessoa evita certos lugares e situações e, por isso, como efeito colateral, deixa de se beneficiar de experiências novas e enriquecedoras para seu crescimento e desenvolvimento pessoal. E m muitos casos, ao se isolar das pessoas e do mundo, tem grandes chances de também ser esquecida. Esses casos são tratados pela literatura médica e psicológica como Transtornos de Ansiedade.

Nem sempre ansiedade é um fenômeno patológico

Por outro lado, é necessário pontuar que a ansiedade não é apenas um fenômeno patológico, pois ela também está presente no ciclo de vida do ser humano e contempla algumas fases do desenvolvimento. Por exemplo, um adulto que se sente ansioso diante de uma reunião com o presidente da empresa em que trabalha.

A ansiedade normal a que me refiro é inerente à condição humana e elemento importante para o desenvolvimento porque promove mudanças ao permitir que as pessoas entrem em contato com um universo novo e desconhecido e, por que não, surpreendente, favorecendo o auto conhecimento diante do significado da vida que é único e individual, mas pode ser divido com aqueles que amamos.

Coma a intervenção de um psicólogo funciona com a ansiedade?

Para finalizar, insiro a intervenção como forma de tratamento do transtorno que só é caracterizado como tal pelo conjunto de sintomas que ele configura. Alguns estudiosos comportamentais sugerem que sujeitos inseridos em ambientes “contaminados” por estímulos aversivos, punitivos e ameaçadores, proporcionarão um quadro crônico de ansiedade, evocando no sujeito comportamentos estereotipados.

Essa condição ambiental deve ser trabalhada no processo terapêutico, servindo de guia para que o paciente encontre caminhos satisfatórios ao buscar interações mais reforçadoras e prazerosas, ampliando seu contato com fontes que proporcionam um comportar-se diferente, mais leve e feliz. E se não for possível alterar o seu contexto, seja criativo, se comportamentos são aprendidos ao longo da vida, por que não modificá-los?

Texto publicado por Thaiana F. Brotto

Psicóloga Comportamental

CRP 06/106524

*O material deste site é informativo, não substitui a psicoterapia oferecida por um psicólogo.

Fontes Consultadas:

BANACO, R.; ZAMIGNANI, D. Um panorama analítico-comportamental sobre os transtornos de ansiedade. Rev. bras.ter. comport. cogn. [online]. jun. 2005, vol.7, no.1 [citado 24 Outubro 2008], p.77-92. Disponível em: http://pepsic.bvspsi.org.br/scielo.%2 ... 09&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 16 de outubro de 2008

BARBOSA, C. Ansiedade: Possíveis intervenções na análise do comportamento. In: BRANDÃO, M.; CONTE, F.; BRANDÃO, F.; INGBERMAN, Y.; MOURA, C.; SILVA, V. & OLIANE, S. (Orgs.). (2004). Sobre comportamento e cognição: Vol. 13. (pp. 163-167). Contingências e metacontingências: Contextos sócio-verbais e o comportamento do terapeuta. Santo André, SP: ESEtec.

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